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Viagens sem Fronteiras

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Tempestade em Veneza

6 de agosto de 2017.

 

Dia de arrumar a mala e sair de Milão em direcção a Veneza. As minhas pernas estavam horríveis, mas as manchas estavam mais claras, o que não significava nada. A comichão tinha passado, mas os pés ainda estavam doridos. Provavelmente iriam inchar novamente que nem dois valentes troncos. Parecia uma grávida.

Na noite anterior, tinha pesquisado na net sobre a vaga de melgas que estava a sobrevoar Milão e descobri um relato de uma portuguesa, que tinha sofrido o mesmo contratempo numa viagem que tinha feito ao norte de Itália (tal como eu). Parece que o norte deste país foi invadido por uma praga de melgas-tigre (zanzare tigre), que têm riscas e mordem como os tigres. As picadas destas bestinhas perfuram a roupa, o que significa que estar tapado ou não estar é indiferente. O relato que ela fez sobre o resultado das picadas era em tudo semelhante ao meu fardo. As babas incham três vezes mais que as babas normais e em vez de uma ou duas picadas, são uma carrada delas espalhadas pelo corpo. E ainda com a agravante de fazer inchar os tornozelos, obrigando mesmo a idas ao hospital para injecção de cortisona. Com tanta informação, lá fiz o ritual matinal... colocar a pomada de cortisona em cima das babas e borrifar-me de repelente, que era extremamente tóxico. E, para além deste problema, ainda me doía um dente que foi intervencionado antes da viagem. Maldita hora que fui tirar uma cárie! Doía-me ao mastigar os alimentos e a beber liquídos gelados. A sorte é que a Joana é um anjo da guarda e lá me deu um analgésico (brufeno) para aligeirar a dor.

Antes de sair, dei uma olhadela ao quarto. Iria ter saudades daquele hotel, sem dúvida. Mas não ia ter saudades de Milão e nem do calor exarcebado e nem das melguinhas que me picaram. Mais uma vez, comi que nem um abade ao pequeno-almoço porque sabia que não iria ter fome durante muito tempo. Era o meu último majestoso pequeno-almoço e tinha de aproveitar até à última gota de cappucino.

Fomos para a Estação Central e lá partimos para Veneza - Santa Lúcia no comboio das 09:15h. Apesar de termos viajado na Trenitália, a viagem decorreu sem incidentes. Sim, as carruagens tinham todas ar-condicionado, que estava a funcionar que nem uma maravilha. Duas horas e vinte minutos depois, chegámos à estação de Veneza-Mestre, onde ficava o nosso hotel. Mestre é uma terreola que fica a 15 minutos de Veneza, na parte do continente. O hotel que nos iria receber ficava numa rua habitacional (Via Giorgio Rizzardi, Marghera), junto a uma fonte luminosa. Tinha a designação de Hotel Mondial (https://www.tripadvisor.pt/Hotel_Review-g194812-d237382-Reviews-Hotel_Mondial-Marghera_Veneto.html) e afirmava-se como um hotel de três estrelas. Por fora, parecia um edificio banal... por dentro, a recepção era muito iluminada, quase luxuosa. Chegámos antes do horário de check-in, por isso tivemos de esperar por um quarto. Ficámos sentadas nos sofás da recepção, cada uma concentrada no seu telemóvel. Passados alguns minutos, fomos chamadas pelo recepcionista para tratar do check-in. Tivemos de pagar 10 euros de taxa turística (o valor dependia da classificação do hotel). O quarto 116 esperava-nos.

Uau... as nossas expectativas foram pelo cano abaixo. Sabiamos que o hotel era fraco, apesar da excelente localização (dois minutos a pé da estação ferroviária), mas nunca pensei ficar num quarto tão minúsculo como este. A cama também não era muito grande, tapada com uma coberta roxa. Aliás, o quarto tinha tons de roxo e branco, o que transmitia uma certa melancolia. Só havia espaço para um pequeno móvel branco em frente à cama. Não havia armário, somente um courrier onde estavam alguns cabides. A televisão estava atarrachada à parede e, junto à janela, estava uma cadeira de plástico transparente. A casa-de-banho tinha a particularidade de ser mais pequena que o próprio quarto, com linhas simples. O poliban era extremamente pequeno para uma pessoa rechonchuda como eu. Pelo menos estava limpa. A má impressão continuou... a televisão tinha os cabos soltos e não transmitia uma imagem sequer e a cadeira estava partida. Deu-me vontade de dar uma gargalhada bem forte, mas o sitio não era merecedor disso. Por isso, fomos à descoberta de Veneza... pelo menos, era uma actividade mais interessante e o nosso maior objetivo.

Descemos à recepção para obtermos informações sobre a deslocação para Veneza. O recepcionista, prontamente, informou-nos que a 20 metros da porta do hotel havia uma paragem de autocarro, onde paravam as viaturas 6 e 6L que nos levariam a Veneza. Só que, como era Domingo, os autocarros não estavam a trabalhar, por isso tivemos de nos socorrer da estação ferroviária. 

Poucos minutos depois, estávamos em Veneza. Assim que saímos da estação, deparámo-nos com a bela e magnífica Igreja de San Simeon Piccolo, bem como a populosa Ponte Scalzi

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O céu estava meio coberto de nuvens, mas o sol despontava na sua força, trazendo o calor abafado dos dias anteriores. No entanto, sabia que estava previsto chover em Veneza, pelo que rezava para que isso acontecesse o mais depressa possível. Caminhamos pela Ponte Calatrava, meio envidraçada, em direcção à Piazzale Roma, a praça mais procurada pelos turistas. Aqui, situa-se o posto turistico (escondido numa garagem) e todos os transportes que facilitam a vida de qualquer turista quando o objetivo é conhecer a cidade. Muitas paragens de autocarros e de vaporettos (os ferries que circulam no Grande Canal e pelas ilhas).

Veneza podia se orgulhar de ser uma cidade singular. Apesar de sujeita às mais diversas intempérides devido à sua localização (nomeadamente inundações), Veneza sempre foi, desde os tempos antigos, uma cidade rica em arte e arquitectura (exemplo disso, os edificios da Praça de São Marcos). Napoleão conquistou-a em 1797. A cidade juntou-se ao reino de Itália em 1866, unindo o país inteiro pela primeira vez. Actualmente, é possível ver os antigos palácios de Veneza como museus, lojas e hotéis, mas o essencial permanece... ainda se vê muitos barcos de pescadores nos canais, pontes que aparecem rua sim, rua sim e as glórias do passado que aparecem em cada esquina.

Esta cidade divide-se em seis antigos distritos administrativos (sestieri): Cannaregio (onde comi a melhor refeição italiana de toda a viagem), Castello, San Marco (onde se encontra a famosa praça), Dorsoduro, San Polo e San Croce. A cidade pode ser admirada através de uma caminhada pelas ruas estreitas e históricas, bem como através do vaporetto n.º 1, que faz a viagem pelo Grande Canal, indo da Piazzale Roma até à Piazza San Marco. Ambas as maneiras são óptimas formas de conhecer uma cidade que merece um escrutínio demorado.

Fomos ao posto turistico que nos forneceu um mapa da cidade, indicando-nos um caminho turistico (em amarelo) pela cidade. De facto, o caminho era extremamente longo, mas iria valer a pena. Começámos o trajeto por uma rua próxima da praça dos autocarros. Ficámos admiravelmente surpreendidas que o caminho turistico que estava no mapa estava devidamente sinalizado nos edificios, tal como um qualquer trilho na floresta. Assim, era bem mais fácil chegar ao destino pretendido.

 

 

A primeira igreja que obsrvamos com algum pormenor em Veneza foi a Chiesa de San Rocco (Campo de San Rocco), que foi desenhada pelo escultor e arqitecto Bartolomeo Bon em 1489 e reconstruída em 1725. O seu exterior combina diversos estilos, sendo que a fachada foi feita entre 1765 e 1771. No interior da igreja, pode-se admirar pinturas de Tintoretto, relatando a vida de São Rocco.

Outra visão interessante que tivemos durante o trajecto foram os imensos canais, com pequenos barcos atracados, que se via praticamente em cada esquina, bem como as famosas gôndolas, o transporte mais utilizado pelos turistas românticos para navegar pelos mesmos e passar debaixo das pontes. O grande problema deste transporte é ser caro. Uma viagem de 40 minutos pelos canais custa 80 euros! Quer sejam dois, quatro ou seis pessoas a comprarem o serviço, o valor é sempre o mesmo. Assim não há bolsa que resista... pelo menos, as nossas. Contudo, é de longe o meio de transporte mais utilizado em Veneza. 

 

 

Depois de percorremos diversas ruas e pracetas, onde se poderia encontrar igrejas, conseguimos chegar à ponte mais famosa e lotada de pessoas de Veneza: Rialto. Digo lotada porque, para além de ser um sítio obrigatório para as fotografias da praxe, também era perfilada de lojas de ambos os lados, pelo que caminhar sobre ela era um enorme martírio. A sua designação provem das palavras rivo alto (que significa sítio alto) e foi uma das primeiras áreas de Veneza a ser habitada. Primeiro, um distrito financeiro e depois um mercado, Rialto tornou-se numa das zonas mais ocupadas e apreciadas pelo turistas. Esta ponte foi concluída em 1591 e até então era a única ponte onde se poderia atravessar o Grande Canal.

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Mas a grande atracção turística de Veneza é, sem dúvida, a Piazza San Marco. Ao longo da sua história, esta praça testemunhou atividades politicas, eventos de Carnaval, procissões, etc. Os turistas inundam este local para ver a Basilica di San Marco (que é um edificio de tirar o fôlego a qualquer um), o Palazzo Ducale e a Torre dell'Orologio. Para além destes edificios, também existem museus, lojas, restaurantes chiques com orquestras ao vivo, ao longo da praça em forma de rectângulo.

A Basilica di San Marco (http://www.basilicasanmarco.it/?lang=en) é considerado um dos maiores edificios da Europa, com um exterior de um encanto oriental, onde se podem ver cópias dos famosos cavalos de bronze vindos de Constantinopla em 1204, bem como colunas e mármores que dão um enorme colorido à fachada. 

 

 

O Palazzo Duccale (http://palazzoducale.visitmuve.it/) foi a residência oficial dos gonernantes de Veneza (uma espécie de Palácio de Belém) e foi fundada no Sec. IX. O atual edificio deve a sua aparência ao trabalho de construção feitos nos séculos XIV e XV.

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A Torre dell' Orologio é uma torre com relógio com uma bela decoração e foi construída no final do Séc. XV.  Mostra as fases da lua e os signos do zodíaco. Reza a lenda que, depois da conclusão do relógio, os dois inventores ficaram sem olhos por forma a que não se pudesse fazer outra réplica (creeeeeepy...). No nível mais alto, encontra-se o leão de São Marco, bem como duas figuras de bronze conhecidas por Mori, que tocam o sino à hora prevista.

 

 

Depois da visita obrigatória ao centro da praça, passeamos pela riva onde podemos ver os portos onde paravam os vaporettos e as gôndolas.

 

 

Começava a entardecer e o céu ia ficando carregado de nuvens, embora ainda despontasse alguma luz dourada do sol, conferindo à paisagem uma beleza ainda mais estonteante. O nosso jantar foi constituido de salgados italianos, à base de queijo, presunto, anchovas, cogumelos, entre outros, e ocorreu num pequeno bar numa das muitas ruas de Veneza. Quando chegamos novamente à estação ferroviária já estava a trovejar. Um espectáculo de rara beleza onde as pessoas encontravam-se na rua, à chuva, para conseguirem gravar o momento. Foi um final de dia extraordinário numa cidade extraordinária.

 

 

 

Fonte: DK Eyewitness Travel. Italy 2017, pp. 89-124.