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Viagens sem Fronteiras

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Pelos recantos de Veneza

8 de agosto de 2017.

 

Hoje foi dia de fazer um pouco de ronha na cama, visto que os dias anteriores foram repletos de passeios e descobertas. Olhei para as minhas pernas e sorri. Elas estavam com melhor aspecto, sem dúvida. As babas iam escurecendo e já não causavam comichão. Bendita pomada! O dia seria dedicado a visitar Veneza com mais pormenor, percorrendo outros caminhos desconhecidos. Vendo bem, seria visitar a outra margem que não tinha sido descoberta anteriormente.

Depois de um pequeno-almoço novamente deprimente e de uma viagem de autocarro, onde estávamos completamente comprimidas entre vários sovacos e suores, chegámos à bela Veneza. O céu estava imensamente azul, não se via uma nuvem. O sol intenso incidia nas ruazinhas e pracetas, ameaçando dificultar o nosso passeio.

Mesmo em frente à Estação Ferroviária de Santa Lúcia, na outra margem, situa-se a igreja de San Simeone Piccolo, pertencente ao distrito de Santa Croce. Atravessámos a Ponte Scalzi e dirigimo-nos a este belo edificio, construído entre 1718-38 por Giovanni Antonio Scalfarotto, com traços emergentes da arquitectura neoclássica. A sua cúpula assemelha-se á da igreja de Santa Maria della Salute, mais embelezada e proeminente. O seu desenho circular e central, bem como a cúpula de metal fazem lembrar os modelos bizantinos. Foi uma das últimas igrejas construídas em Veneza, num dos seus distritos mais pobres. O frontão da entrada possui um relevo de mármore, que relata "A Martirização dos Santos" de Francesco Penso, conhecido como Il Cabianca. Supostamente, San Simeone foi o primo martirizado de Cristo, visto como um judeu pelos romanos.

 

 

É importante relevar a beleza da Ponte Scalzi (Ponte Degli Scalzi), uma das quatro pontes a atravessar o Grande Canal. A sua designação significa "Ponte dos Monges". Esta ponte liga o distrito de Santa Croce ao distrito de Cannaregio. Foi desenhada por Eugenio Miozzi e completada em 1934, substituindo uma ponte de ferro austríaca. 

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Algumas ruas depois, encontrámos a igreja de San Simeone Profeta, conhecida por San Simeone Grando, para se distinguir da maior igreja de San Simeone Piccolo. Foi fundada em 967 pelas famílias patrícias de Ghisi, Adoldi e Briosi. Originalmente foi um humilde edificio de madeira, até ser reconstruído, depois de um incêndio em 1150, em pedra e ser transformado numa igreja paroquial. Atualmente possui uma fachada neoclássica, com um interior reconstruido no Séc. XVIII por Domenico Margutti. 

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Logo de seguida, deparamo-nos com a Igreja de San Giacomo dell'Orio, cujo nome é de origem desconhecida, podendo derivar de uma árvore de louro que existira perto do edificio. Foi fundada no Séc. IX e reconstruída em 1225. O campanário data desse período. Sofreu uma enorme renovação em 1532 e o seu telhado de quilha de navio data do Séc. XIV. Duas das suas colunas proveiram da Quarta Cruzada, depois do saque a Constantinopla.

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Mais algumas ruelas caminhadas e chegámos ao Campo della Pescaria, onde se situa o mercado principal, perto da Ponte Rialto. Este local enche-se diáriamente de locais e turistas, que querem comprar os coloridos produtos locais, desde fruta, legumes, flores, entre outros. Este mercado, mesmo junto à margem do Canal Grande, existe há sete séculos. Enquanto Joana visitava o mercado, preferi ficar junto ao cais, onde observei as gôndolas que partiam para chegar à outra margem.

 

 

Do cais, pude também observar a magnifica fachada do Ca' d' Oro, um palácio situado no distrito de Cannaregio e voltado para o Grande Canal. Este edificio foi construído entre 1421 e 1440, por encomenda do mercador veneziano Marino Contarini. Depois da morte deste último, ocorrida em 1441, e logo de seguida à do seu unico filho, Piero, este palácio foi dividido entre os filhos deste último, desencadeando uma longa série de mudanças de proprietário nos séculos seguintes, que iriam modificar a sua fiosionomia, especialmente no interior, devido às diferentes necessidades de habitabilidade. No final do Séc. XIX, este edificio foi sujeito a um restauro, a mando do seu proprietário de então, Alessandro Trubetzkoi, tendo sido modificada a sua fachada e interior. Em 1894, todo o edificio foi comprado pelo barão Giorgio Franchetti, que empreendeu um enorme restauro filológico no mesmo, por forma a reportá-lo o mais possivel à sua morfologia quatrocentista. O seu objetivo primordial era hospedar a sua colecção de arte para torná-la visitável ao público. Em 1927, foi inaugurado o museu Galleria Giorgio Franchetti (http://www.cadoro.org/?lang=en).

 

 

Perto da turistica e bem agitada Piazza San Marco, encontrámos a bela igreja católica de San Moisé, de estilo barroco. Foi construída inicialmente no Séc.VIII. É dedicada a Moisés, porque os venezianos consideram, com frequência, os profetas do Velho Testamento como santos canonizados. Também honra Moisé Venier, um aristocrata responsável pela sua reconstrução durante o Séc. IX. 

A sua fachada barroca, datada de 1668, impressiona quem a contempla. A sua decoração consiste em esculturas, muitas delas atribuídas a Heinrich Meyring. A sua arquitectura é atribuída a Alessandro Tremignon, com o patronato de Vincenzo Fini, cujo busto se encontra no cimo da porta de entrada. Antigamente, as estátuas em espaços públicos eram proibidas em Veneza. Assim, ao colocar o seu busto na fachada de uma igreja, Fini poderia mostrar a sua riqueza.

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Umas ruas mais à frente, a caminho da Ponte Accademia, descobrimos mais uma igreja, neste caso, a de San Vidal, que atualmente funciona como local para realização de concertos musicais. Neste sítio foi erigida uma igreja no ano de 1084 pelo doge Vitale Falier. Esta igreja foi destruída em 1105 por um incêndio e a sua reconstrução durou até ao Séc. XVI. Em 1696, voltou a ser reconstruída em honra do antigo doge Franscesco Morosini. A fachada, construída entre 1734 e 1737, foi concebida por Andrea Tirali e contem retratos esculpidos do doge Carlo Contarini e da mulher, Paolina. Em 2016, esta igreja tornou-se num local dedicado a eventos musicais.

 

 

De seguida, chegámos à Ponte dell' Accademia, em forma de arco, e que atravessa o Grande Canal. Orginalmente em ferro, foi inaugurada em 1854 e fica próxima da Gallerie dell' Accademia. Na sequência desta obra, foi aberto um concurso para edificar uma ponte em pedra. O projeto vencedor de Torres e Briazza não foi realizado e construiu-se uma ponte em madeira, da autoria de Eugénio Miozzi, inaugurada em 1933. Sucessivas intervenções adicionaram os elementos metálicos à obra original.

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A caminho da Basilica de Santa Maria della Salute, encontrámos numa pequena praceta a antiga igreja de San Gregorio, que fica nas traseiras do Palácio Genovese. Foi inaugurada no Séc. IX, tornando-se uma abadia no Séc. XIII. No Séc. XV, foi reconstruída por Antonio da Cremona. Em 1775, depois de um longo periodo de crise, a abadia fechou e em 1807, depois da ocupação napoleónica de Itália, deixou de ser uma igreja paroquial. A sua fachada é gótica, com uma porta ogival e longas janelas. Atualmente, é um edificio sem uso.

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Chegámos ao edificio mais imponente e majestoso do distrito de Dorsoduro, Basilica de Santa Maria della Salute. É uma pequena basilica e igreja católica situada em Punta della Dogana, entre o Grande Canal e o Canal de Giudecca, que pode ser contemplada da Piazza de San Marco. Este edificio foi construído e dedicado à Nossa Senhora da Saúde, por causa da praga que assolou Veneza em 1630. Foi desenhado por Baldassare Longhena, num estilo barroco, e a sua construção iniciou-se a 1631. A cúpula desta basilica foi uma importante adição a Veneza, tornando-se emblemática na sua paisagem.

 

 

Para finalizar o dia, percorremos o distrito de Cannaregio. Não é um distrito tão vistoso e memorável como os anteriores. O seu nome provem dos canaviais existentes no local antes de ser habitado ou do Canal Regio (canal real), que permitia entrar facilmente na cidade para quem vinha do continente. Foi neste distrito que foi estabelecido o primeiro ghetto em 1516, com sinagogas e um emotivo monumento que recorda os judeus deportados de Veneza. Aqui localizam-se as igrejas de Madonna dell'Orto, Santa Maria Assunta e de Santa Maria dei Miracoli. Junto ao Grande Canal, encontram-se dois belos palácios: Vendramin Calergi, que serve de casino municipal e o Ca' d'Oro, anteriormente mencionado.

Depois de um longo dia de descobertas venezianas, o cansaço tomava conta de nós e a fome também. Tinhamos de comer qualquer coisa antes de regressarmos ao hotel. E assim aconteceu o segundo roubo e, talvez, o episódio mais insólito desta viagem. Antes mesmo de relatar este episódio, tenho de confessar que Veneza, tal como Lisboa e outras cidades portuguesas, está a tornar-se asiática. Sim, existem muitos estabelecimentos comerciais chineses em Veneza. Quer seja lojas de roupas que vendem tudo a 8 euros, passando por lojas de souvenirs ou restaurantes, lá estão eles para dominar a cena do comércio. Pois bem, eu e a Joana resolvemos jantar num restaurante chinês dedicado à comida italiana. Como estávamos cansadas, sentamo-nos numa das várias mesas do restaurante e pedimos o prato do dia com direito a bebida, que custava a módica quantia de 9 euros. A Joana pediu um prato de massa à bolonhesa e eu um prato de massa carbonara. O que veio parar às nossas mãos foi uma versão mediocre deestes pratos italianos. Pouca quantidade no prato e uma apresentação de fazer bradar aos céus. O meu prato parecia-se vagamente com a massa carbonara, assim como o sabor. No entanto, o prato de Joana ainda era mais decepcionante. Tão bem ela sumarizou a situação: "A minha massa só tinha molho da Guloso em cima.. Um prato que me custou nove euros, quando a eles só custou 0,60€". A sensação de banhada autêntica invadiu-nos e ainda dura até hoje. Sinto-me envergonhada por ter sido enganada desta forma. Lição que se tira deste roubo declarado: nunca façam refeições junto aos pontos mais turisticos, porque serão vítimas de roubo, como nós fomos. Os melhores sitios para se comer excelente comida italiana são em zonas bem menos turísticas, como Cannaregio. E vim a descobrir isso no dia seguinte. 

 

Fonte: DK Eyewitness Travel. Italy 2017, pp. 89-141.

 

 

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