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Viagens sem Fronteiras

Viagens sem Fronteiras

Pesadelo em Verona

5 de agosto de 2017.

 

Este dia não prometia ser melhor que o anterior. Acordei com muita comichão nas pernas, cobertas com babas muito vermelhas e salientes. As minhas pernas estavam uma lástima... nem conseguia olhar para elas sem sentir frustração. Mesmo com doses de repelente e pomada (que só aliviavam por pouco tempo), continuava a sentir-me muito incomodada com a situação. Contudo, a vontade de passear por Verona sobrepôs-se ao mau estar e lá me arranjei para desfrutar o dia da melhor maneira possível.

O pequeno-almoço do hotel continuou a ser o ponto alto do dia... comi que nem uma rainha. Pelo menos passar fome, não passaria. E com o estômago bem atestado, lá nos dirigimos à Estação Central para iniciar a viagem de comboio até Verona, que custou a módica quantia de 25 euros (ida e volta). Mais uma vez, o comboio que nos transportou foi a Trenitália e o pior ainda estava para vir.

Embora esta viagem tivesse dividida por três regiões: Lombardia, Veneto e Toscânia, neste dia viajamos até à região de Veneto para visitar a histórica cidade de Verona, a tal que supostamente serviu de inspiração para Shakespeare escrever uma das suas obras-primas: "Romeu e Julieta". Esta cidade é a segunda maior desta região, atrás de Veneza, sendo uma das mais prósperas do Norte de Itália. O seu centro histórico revela magnificas ruínas romanas e tem duas atrações que chamam imediatamente a atenção: a Arena, datada do Sec. I, que ainda recebe eventos musicais durante todo o ano, bem como a Piazza Erbe com seu mercado colorido.

Assim que saímos da estação ferroviária de Verona, apanhamos o autocarro para visitar a Arena (http://www.arena.it/arena/en), situada na Piazza Brà. Provavelmente, um dos edificios mais grandiosos desta cidade. É o terceiro maior anfiteatro do mundo, a seguir ao Coliseu de Roma e o de Santa Maria Capua Vetere, próximo de Nápoles. Para se visitar a Arena, é necessário pagar 13 euros.

 

 

Seguimos por uma das vias principais em direcção ao centro histórico, Via Mazzini. Antes mesmo de continuarmos o passeio, fui a mais uma farmácia, onde comprei uma pomada de cortisona e anti-histamínico para minimizar a intensa comichão que sentia nas pernas. Cada vez que olhava para elas, só me apetecia chorar. As babas pareciam mais assanhadas e, além da comichão, comecei a sentir dor nos pés. O calor que se fazia sentir era extremamente insuportável, o que me fez beber água constantemente. Mesmo com estes contratempos físicos, prosseguimos com o passeio até ao próximo destino: a Casa di Giulietta, que fica na Via Cappello (https://casadigiulietta.comune.verona.it/nqcontent.cfm?a_id=42703).

A trágica história de Romeu e Julieta foi escrita por Luigi da Porto di Vicenza em 1520, tendo servido de inspiração para outras obras literárias, filmes e ballets. Reza a crónica que Romeu trepou o balcão da casa de Julieta, mas, na realidade, este edificio é uma pensão restorada do Séc. XIII. Os turistas inundam o espaço só para ver a fachada e o famoso balcão, para além da icónica estátua de Julieta, cuja "apalpadela" no seio direito supostamente traz sorte no campo amoroso. A Casa di Romeo fica numa outra rua, ViaArche Scaligeri. A chamada Tomba di Giulietta encontra-se numa cripta debaixo do claustro de São Francesco al Corso. Tanto a casa como a tomba encontram-se abertas diáriamente e paga-se a entrada. Pelo menos, a entrada para a casa custa 6 euros.

Provavelmente, o sitio com a maior enchente de turistas em Verona, a Casa di Giuletta resume-se a um pátio que facilmente fica congestionado de pessoas. Existe uma entrada para visitar a casa e aceder ao famoso balcão, mas ter que pagar 6 euros não valia o esforço. O túnel de entrada para o pátio estava repleto de mensagens amorosas e cadeados em forma de coração, conferindo ao local uma aura romântica. Mas o que realmente atraía as pessoas era a estátua da donzela Julieta, cujo seio direito era o alvo imediato das milhares de mãos estrangeiras que estavam naquele sitio. Apesar da dor contínua e cada vez mais intensa dos meus pés, fui rápida o suficiente para tirar as fotografias da praxe junto à estátua.

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Próxima da Casa di Giulietta, encontramos a Piazza Erbe (praça do mercado), cuja designação próvem do antigo mercado de ervas. É uma praça grande repleta de toldos por causa do mercado atual e dos restaurantes existentes. Na parte norte da praça encontra-se o barroco Palazzo Maffei, datado de 1668. Na parte oeste, encontra-se a Casa dei Mercanti, um edificio datado do Séc. XVII. À sua frente, é possivel observar os frescos, por cima dos cafés e restaurantes. No meio da praça existe um fontanário, quase tapado pelos toldos, que recorda a utilização do local como um mercado por mais de 2000 anos.

 

 

Próxima desta praça, situa-se a Piazza dei Signori, onde se encontra a estátua central de Dante, datada do Séx. XIX, cujo olhar se dirige para o Palazzo del Capitano, a anterior casa dos comandos de Verona. Por detrás da estátua, encontra-se a Loggia del Consiglio (a Casa do Conselho), cujo o topo é enfeitado com estátuas de algumas pessoas de renome de Verona. Também é possível ver nesta praça a Torre dei Lamberti, de 84 m. Esta praça conecta-se à Piazza Erbe pelo Arco della Costa, cuja designação provém da costela de uma baleia que, supostamente, esteve pendurada no mesmo nos últimos 1000 anos.

 

 

Descobrimos, a caminho da Piazza Duomo, a belissima Chiesa di Santa Maria Antica, datada do séc. XII. É uma igreja católico-romana dedicada ao Patriarca de Aquileia, tendo servido de capela privada para a familia Scaligeri, que governava Verona. É possivel ver, junto à porta lateral, o monumental arco de Cangrande I della Scala.

 

 

Já sentia muitas dificuldades em caminhar, quando chegámos à Piazza Duomo. Estava a suar em bica devido ao extremo calor que se fazia sentir, não havendo uma sombra que refrescasse por breves momentos. Apesar de ter as pernas tapadas, sentia o calor a passar pelo tecido leve das calças e a queimar as pernas. Elas estavam extremanente quentes e vermelhas. Para piorar o cenário, por si dantesco, das minhas pernas, deparei-me com os tornozelos inchados que se assemelhavam a dois troncos. O passeio estava a tornar-se num pesadelo para mim. Mas mesmo assim, derrotada pelo calor e pelas babas das melgas, lá consegui observar a Chiesa di San Nicolò (https://www.cittadiverona.it/guide/chiese/index.php), cuja fachada majestosa saltava à vista.

Esta catedral começou a ser construída em 1139, e a sua fachada contém um magnifico portal romano esculpido por Nicolò. 

 

 

Antes de chegarmos à Piazza Duomo, avistámos a Chiesa Sant'Anastasia (https://www.cittadiverona.it/guide/chiese/index.php), que se localiza na praça com o mesmo nome. Esta igreja começou a ser construída em 1290. O seu portal gótico contém frescos datados do Séc. XV e cenas da vida do mártir São Pedro gravadas.

 

 

Depois de ver tantas igrejas, foi agradável chegar à Ponte Pietra, uma das várias pontes que atravessava o Fiume Adige (o rio da cidade). Na outra margem, era possível observar na encosta o Teatro Romano, datado do Séc. I a.c. 

 

 

As lágrimas começaram a brotar dos meus olhos por causa dos meus pés inchados. Estava com extrema dificuldade em caminhar e em condições climatéricas tão secas. Precisava de sentar-me num sítio extremamente fresco, enquanto Joana iria visitar o Castelo Castelvecchio. Melhor sítio fresco para descansar... o posto turistico, em frente à Arena. Durante 30 minutos, senti-me no paraíso com o corpo mais arejado e com algum descanso nos pés.

O regresso a Milão iria demorar perto de duas horas. O comboio das quatro e tal da tarde não estava cheio. Pudera...com carruagens velhas, quem quereria viajar? Ninguém, exceto as portuguesas patêgas que queriam chegar a Milão o mais rapidamente possível. A nossa carruagem estava minimamente composta de gente, quando partiu. Atrevo-me a dizer que foi a pior viagem de comboio que alguma fiz na vida... não... houve uma viagem de comboio que fiz de Faro a Vila Real de Santo António há alguns anos atrás, que foi definitivamente a pior. Mas esta quase que a suplantou. A carruagem não tinha ar condicionado. Em pleno século XXI, isto era ridiculo. Mesmo com as janelas todas abertas, não entrava uma brisa fresca sequer. Os passageiros estavam a destilar suor por todo o lado. Como a Joana afirmou, e muito bem, parecia que estávamos numa câmara de gás a morrer lentamente. Como é possível que uma das maiores empresas ferroviárias de Itália permitia uma situação como esta? Bilhete caro e zero conforto. A partir daí, nunca mais viajámos na Trenitália e, desde já, recomendo a quem esteja a ler este texto para não fazê-lo.

O percurso da Estação Central até ao hotel pareceu-me extremamente demorado... talvez porque parecia um caracol, quase que rastejava pelo caminho. O nosso quarto parecia um santuário... imaculado e muito fresco. Um duche de água fresca serviu para relaxar o meu corpo totalmente derreado. Voltei a colocar a pomada de cortisonapara aliviar a dor. Pelo menos, a comichão tinha abrandado considerávelmente. Deitei-me na cama e, durante uma hora e meia, dormi o sono dos justos.

Eram 21:30h quando acordei. Ainda não tinhamos jantado. Vestimo-nos e fomos à receção solicitar recomendações de restaurantes perto do hotel. O gentil recepcionista, no seu inglês mais que perfeito, indicou-nos um restaurante nas imediações, chamado Alla Cadrega (https://www.facebook.com/la.cadrega/). Confesso que não estava com  muita fome, mas tinhamos de comer qualquer coisa. O restaurante, com uma decoração tipicamente italiana, estava ainda aberto e bem composto. As mesas estavam decoradas com tolhas axadrezadas de vermelho e branco.  Escolhi uma pizza com tomate e mozzarella, que por sinal era enorme, e bebi uma coca-cola zero. No final, paguei perto de 15 euros. Foi neste restaurante que descobri que tinhamos de pagar o coperto, uma taxa aplicada ao serviço de mesa de 2 euros. Como nos disse a empregada, a culpa é do Berlusconi.

 

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Fonte: DK Eyewitness Travel. Italy 2017, pp. 146-149.