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Viagens sem Fronteiras

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São Miguel, a ilha verde

30 de setembro de 2017.

 

Inicio de um fim-de semana a dois, longe do rebuliço do dia-à-dia, aproveitando umas mini-férias necessárias para recarregar forças e energia para os ultimos meses do ano.

Destino: Ilha de São Miguel nos Açores. Apesar de já conhecer algumas ilhas açoreanas (Faial e Pico), nunca visitei a mais importante de todas: São Miguel. E ainda por cima, estava em excelente companhia.

A viagem aérea foi feita pela Ryanair, quer na ida como no regresso. Confesso que estas duas viagens na Ryanair desagradaram-me completamente. Para além de parecermos sardinhas enlatadas, bem apertadas nos assentos, quase sem espaço para esticar as pernas, fiquei separada do meu companheiro, apesar de estar sentado atrás de mim. Uma nova regra da Ryanair: queres lugar marcado? Pagas! Se não queres pagar, escolhemos-te o lugar. Resultado: casais e amigos separados, famílias separadas...tudo ao molho e fé em Deus. Para além de me sentir apertada no meu assento, também tinha que estar separada do meu companheiro. Já para não falar da comida ser paga (a sorte é que levei algumas bolachas para petiscar) e de levar com o catálogo de compras da empresa, obrigando os pobres assistentes de bordo a serem vendedores à força. Agora entendo as últimas polémicas entre os trabalhadores e a direcção da Ryanair. Contudo, consegui trocar de lugar com um jovem e assim consegui viajar com quem eu queria.

Chegamos a Ponta Delgada à hora do almoço e, em pouco tempo, estávamos na sede do rent-a-car, ao qual tinhamos feito o aluguer de um automóvel (https://www.ilhaverde.com/pt/). De seguida, fomos para o nosso alojamento, bem no centro de Ponta Delgada. E quando digo centro,é mesmo centro. Rua agitada, com comércio considerável e estreita. Para conseguir arranjar um lugar para estacionar o carro, foi uma autêntica carga de trabalhos. Voltas e voltas em ruas secundárias, mas lá conseguimos estacionar o carro e não muito distante do alojamento onde iriamos ficar durante duas noites. 

O que dizer do alojamento? Uma pequena e discreta maravilha situada numa rua barulhenta. Comercial Azores Guest House (https://www.tripadvisor.pt/Hotel_Review-g189135-d7108328-Reviews-Comercial_Azores_Hostel-Ponta_Delgada_Sao_Miguel_Azores.html) o seu nome. A entrada é muito simpática, com um pequeno balcão e umas escadarias do lado direito que conduziam aos quartos. Pelo que sei, anteriormente este edificio tinha sido uma casa histórica e isso notava-se. No primeiro andar, onde ficava o nosso quarto, situava-se um pátio interior, charmosamente decorado com mesas e chapéus de sol. E bem florido, por sinal.

 

O nosso quarto era grande, arejado e extremamente limpo. Com um wc privativo também muito limpo. As camas eram separadas, mas isso pouco importava. Tivemos sorte com o alojamento, sem dúvida alguma.

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Apesar de não ter pequeno-almoço incluído, isso era o menos importante. Depois de alguns minutos de descanso, resolvemos pôr o pé na estrada e fomos conhecer a ilha verde.

O Arquipélago dos Açores é constituído por nove ilhas, de origem vulcânica, localizadas no Atlântico Norte e dispersas ao longo de uma faixa de 600kms de extensão de Santa Maria ao Corvo. Este território insular, de 2325 km2, contém 246 772 residentes e está a uma distância de 1660 kms do continente europeu e 2454 kms do continente americano. Estas ilhas estão divididas em três grupos geográficos: o grupo oriental, composto pelas ilhas de Santa Maria e São Miguel; o grupo central, composto pelas ilhas Terceira, Graciosa, Pico e Faial; e o grupo ocidental, contituído pelas ilhas do Corvo e Flores. Este arquipélago, juntamente com os arquipélagos da Madeira, Canárias e Cabo Verde definem a região biogeográfica da Macaronésia, cuja designação significa "ilhas afortunadas", para habitantes e visitantes.

A ilha que estávamos a visitar, São Miguel, é a maior de todas as ilhas deste arquipélago, com 62, 1 kms de comprimento e 15,8 kms de largura máxima e uma área de 744,7 kms2, onde vivem 137 856 habitantes. O ponto mais elevado desta ilha, com 1105 m de altura, está situado no Pico da Vara. É caracterizada por dois maciços vulcânicos separados por uma cadeia de cones basálticos, atingindo alturas entre os 200 e os 500m no centro Oeste. O Pico daVara forma o términus do maciço Este, enquanto que o Pico da Cruz, com os seus 850 m acima do nível do mar, é o mais alto do maciço Oeste. No centro da ilha, ergue-se a Serra da Água de Pau, uma cadeia montanhosa que atinge os 940m de altura acima do nível do mar. As crateras impressionantes das Sete Cidades, do Fogo e das Furnas transformaram-se em misteriosas lagoas no meio das montanhas, com águas cristalinas, algumas vezes azuis, outras verdes. Desde o Séc. XV, que a ilha vem sido assolada por erupções vulcânicas e tremores de terra, sendo o mais grave aquele que ocorreu em 1522 e que devastou grande parte da ilha. Atualmente, ainda é possivel ver manifestações de actividae vulcânica, como as fontes de água quente e fumarolas, mais evidentes nos vales das Furnas, na costa Sul, e da Ribeira Grande, na costa Norte.

São Miguel, a ilha verde, é considerada a mais bonita e diversificada do arquipélago açoriano, devido à incrível palete de diferentes tonalidades de verde, patentes nas vastas paisagens, campos de tabaco e plantações de chá.

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A nossa primeira paragem foi no norte da ilha, no Miradouro da Vista do Rei, cujo nome recorda a presença do rei D. Carlos e da rainha D. Amélia em 1901, e onde pude registar belissimas fotografias da Lagoa das Sete Cidades.

 

 

Esta lagoa é o maior reservatório natural de água doce da superfície dos Açores, ocupando uma vasta área de 4,35 kms2 e com uma profundidade de 33 m. Caracteriza-se pela dupla coloração das suas águas, dividindo-se por um canal pouco profundo e atravessado por uma ponte baixa, que separa, de um lado, águas verde e, do outro lado, águas azuis. Estas características, como toda a beleza envolvente, fizeram surgir diversas lendas sobre a sua origem e formação. Está classificada como paisagem protegida.

 

 

 

Reza uma das lendas que, no lugar onde hoje fica a freguesia das Sete Cidades, existia um grande reino onde vivia uma jovem princesa bela e bondosa de olhos azuis. Ela gostava muito da vida no campo e uma das suas actividades preferidas era passear pelos campos, sentindo o cheiro das flores, molhando os pés nas ribeiras, apreciando a beleza dos montes e vales que rodeavam o reino. Num desses passeios, a jovem princesa passou por um prado onde pastava um rebanho, que era cuidado por um simpático de olhos verdes, com quem a princesa decidiu conversar. Depois de uma longa conversa, onde falaram dos animais, flores e de todas as coisas simples e belas que os rodeavam, ele decidiram encontrar-se todos os dias para conversar. Contudo, a notícia dos encontros da princesa com o pastor acabaram por chegar ao conhecimento do rei, que ficou desagradado com a situação, visto que queria ver a sua filha casada com um príncipe de um reino vizinho e, por isso, proibiu-a de voltar a ver o pastor. Respeitando o pai, a princesa acatou esta cruél decisão, mas pediu-lhe que a deixasse despedir-se do pastor, ao qual o rei, sensibilizado, disse que sim. A princesa e o pastor encontraram-se pela última vez nos verdes campos onde se conheceram e, enquanto conversavam, também choravam. E choraram de tal maneira que as lágrimas dos olhos azuis da princesa correram pelo vale e formaram a lagoa azul e as lágrimas dos olhos verdes do pastor caíram com tanta intensidade, formando a lagoa de água verde. Os dois amados despediram-se e as lágrimas choradas pela sua separação formaram duas lagoas, que ficaram para sempre juntas, como dois enamorados...nunca se poderiam  unir, nunca se poderia separar.

Junto ao miradouro da Vista do Rei, situa-se um dos hoteis mais famosos da ilha, pela sua grandiosidade e total degradação: o Hotel Monte Palace, com vista privilegiada para a Lagoa das Sete Cidades. Este antigo hotel de cinco estrelas, atualmente um spot bastante procurado pelos turistas para as tradicionais fotografias, compunha-se de 88 quartos (um deles era uma suite presidencial, 4 suites de luxo, 4 quartos duplos com saleta, 27 quartos triplos e ainda 52 suites).

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Possuia dois restaurantes, o "Grill Dona Amélia" e o "Restaurante Dom Carlos", em homenagem aos reis portugueses que visitaram as Sete Cidades durante o reinado. Era possível desfrutar de um bar, três salas de conferência, salas de jogos, uma discoteca chamada "Night Club Chamarrita", um banco, tabacaria, boutiques, entre outras lojas.

Foi inaugurado em 15 de abril de 1989 com o concerto de Fáfá de Bélem, mas encerrou as portas em 1990 por falência. Era um dos hoteís mais luxuosos da ilha, mas ninguém queria ir lá dormir. Teve vigilância permanente até 2011, quando a empresa de vigilância faliu. A partir daí, o hotel ficou à mercê do abandono e do vandalismo. Contudo, parece que os chineses compraram o hotel e vão restaurá-lo, para abertura em 2021. A ver vamos. 

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Tive pena em não visitar este hotel abandonado. Quando passamos por ele na estrada, não imaginavamos que era um local de visita de turistas com ganas de visitar um edificio decrépito, mas com uma excelente vista para a lagoa. 

A segunda paragem foi para visitar a famosa plantação de chá "Gorreana", que é a mais antiga e única, actualmente, plantação de chá da Europa. Desde 1883, que é um negócio de família que começou quando Ermelinda Gago da Câmara e o seu filho José Honorato abriram a fábrica e venderam a primeira produção de chá "Gorreana".

Este chá é plantado a centenas de quilómetros afastado da poluição industrial, nas montanhas da vasta e luxuriante propriedade Gorreana. Não utiliza qualquer herbicida, pesticida, fungicida, corantes ou conservantes, e é colhido entre Abril e Setembro. O chá, preto e verde, da Gorreana é um produto 100% orgânico, porque não necessita de utilizar quiasquer químicos nas sua plantações, devido ao facto das pragas normais da planta do chá não sobreviverem ao clima desta ilha. Este chá tem sido um dos mais apreciados da Europa, desde que a arte de cultivar chá foi introduzida nos Açores, por dois especialistas chineses em 1874.

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Todo o processo de fabrico é feito à mão, sendo que as máquinas que são utilizadas datam de 1840. A colheita das folhas acontece quando a maioria dos ramos tem três folhas. Cada uma das folhas tem uma idade diferente, como também composições químicas diferentes. Os diferentes processos de produção determinam os três tipos de chá produzidos na Gorreana: preto, verde e Oolong. Para produzir chá preto, as folhas são deixadas a murchar e enroladas, causando o esmagamento parcial da folha, Depois são expostas ao ar, por formar a continuar com o processo lento e natural de oxidação, fermentação e secagem. Para produzir chá verde, as folhas são esterelizadas com vapor, sendo depois enroladas e secas através do método Hysson, por forma a produzir um chá encorpado, rico em taninos e de cor verde.

 

 Em 2012, Bertha Meireles-Hintze, a matriarca da família, foi galardoada em Sâo Miguel com a Medalha de Mérito, pelo seu empenho em manter a Grreana como empresa familiar, desde o inicio da sua actividade no séc. XVIII.  A Gorreana, enquanto plantação, fábrica e museu, é o local ideal para degustar de uma chávena de chá e, ao mesmo tempo, apreciar a maquinaria centenária, que ainda funciona na fábrica. O cheiro do chá fresco e das flores que circundam a propriedade, mais a vista deslumbrante sobre o mar azul e o verde das montanhas, constitui um autêntico paraíso na terra. As plantações da Gorreana cobre uma área de 32 hectares, onde se produzem 33 toneladas de chá por ano (preto e verde) para todo o mundo.

 

 

Depois de experimentar um pouco do chá da Gorreana e de comprar caixas de chás para oferta, voltámos à estrada e percorremos toda a parte norte da ilha, há medida que ia entardecendo. Passamos por uma vila muito charmosa, e bastante histórica, chamada Nordeste (que não visitamos). Esta vila, sede do concelho com o mesmo nome, tem 1341 habitantes e tem um património arquitectónico de imenso valor, como a ponte centenária dos Sete Arcos, a Igreja Matriz de São Jorge, o farol do Arnel, entre outros. A freguesia foi elevada a vila em 1514, por D. Manuel I.

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Este passeio permitiu registar um belo pôr-do-sol, enquanto dirigiamo-nos para Ponta Delgada para jantar.

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A nossa última paragem, antes de chegar ao nosso destino final, foi no Miradouro de Santa Iria, localizado em frente à Baía de Santa Iria, na costa norte da ilha, cuja a vista para o mar é de cortar a respiração, de tão deslumbrante que é. Foi nas encostas deste miradouro que, em 1831, se travou a Batalha da Ladeira da Velha, quando as tropas de D. Pedro IV venceram a do seu irmão, Miguel I de Portugal, abrindo assim o caminho para a concessão de Évora Monte, que iria pôr fim à Guerra Cívil, ocorrida de 1832 a 1834, entre as forças liberais e as forças miguelistas.

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O nosso jantar foi em Ponta Delgada, num restaurante um pouco afastado da zona histórica da cidade, de seu nome "A Tasca" (https://www.tripadvisor.pt/Restaurant_Review-g189135-d6696858-Reviews-A_Tasca-Ponta_Delgada_Sao_Miguel_Azores.html), porque, de facto não passava de uma tasca, meio despercebida numa rua secundária da cidade. Se me recordo, comi bife de atum com batatas cozidas e salada. Estava saboroso e não foi uma refeição cara. 

O primeiro dia em São Miguel foi fabuloso, Como seria o segundo dia? Com muitos banhos e um cozido com vapor vulcânico...

 

Fontes:

https://www.visitazores.com/pt

http://www.azores-islands.info/p/places/sao-miguel/sao-miguel.html

https://byacores.com/hotel-monte-palace-acores/

https://nit.pt/out-of-town/05-12-2016-a-historia-vergonhosa-do-5-estrelas-abandonado-em-sao-miguel

https://gorreana.pt/pt/

http://www.azores.gov.pt/NR/exeres/928FB64A-64C2-4E1D-BBDD-C11351A63D12.htm

http://www.junior.te.pt/servlets/Rua?P=Portugal&ID=2489

https://www.comercialazoresguesthouse.com/pt/

 

 

 

 

 

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