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Viagens sem Fronteiras

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São Miguel, a ilha verde - parte II

1 de Outubro de 2017.

 

Segundo dia de visita a São Miguel, a ilha declaradamente verde. O passeio iniciou-se com uma visita à belissíma Lagoa do Fogo, a segunda maior da ilha e uma das maiores do Arquipélago dos Açores. A caminho deste local, pudemos apreciar as vaquinhas que iam pastando pelas colinas verdejantes.

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A Lagoa do Fogo encontra-se classificada como reserva natural desde 1974, e faz parte da Rede Natura 2000 por ter sido classificada como zona especial de conservação. Integra-se no maciço vulcânico da Serra de Água do Pau, bem no centro da ilha. À volta desta lagoa, existe uma densa e exuberante vegetação endémica e as águas são num tom muito azul, que lhe confere uma beleza única.

 

 

A caldeira vulcânica, tal como o vulcão que a originou, é a mais jovem desta ilha, presumindo-se que se tenha formado há cerca de quinze mil anos. Ocupa uma área de 1360 hectares e a sua configuração actual resulta do último colapso, que terá ocorrido sensivelmente há cinco mil anos. A última erupção aconteceu em 1563.

É a lagoa mais alta da ilha com 949 metros, e as suas paredes apresentam desníveis de 300 metros. A profundidade máxima da lagoa é de 30 metros e o seu perimetro apresenta várias espécies de plantas endémicas como o cedro-do-mato, olouro, a urze ouo sanguinho. 

Parámos no Miradouro da Barrosa, junto à Lagoa do Fogo, por forma a apreciar a beleza do local. Se existem paraísos na Terra, este é um deles.

 

De seguida, dirigimo-nos em direcção à vila das Furnas por dois motivos: um banho nas águas termais e experimentar o famoso cozido.

A primeira paragem foi na Poça da Dona Beija, antigamente conhecida por Poça da Felicidade, um parque de piscinas termais. Abriu portas ao público no dia 29 de Novembro de 2010, sendo um espaço com requinte, organização e que recebe manutenção diária. No local encontra-se igualmente uma pequena loja de lembranças e conta com um segurança a tempo inteiro. Mais recentemente, em finais de 2015, sofreu alguns obras de melhoramentos que permitiu a adição de duas piscinas. Encontra-se dividida em 5 piscinas/tanques de águas termais quentes, com diferentes profundidades e temperaturas médias: Ribeira, Serena, Mística, Convívio Thermae e Meditação. Em cada piscina encontra descrito o seu nome, temperatura, e também a profundidade.

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A nascente fica dentro do parque e abastece as cinco piscinas já referidas. As suas águas têm temperaturas que variam por volta dos 39º graus. Confesso que ao fim de alguns minutos de banho, comecei a sentir-me zonza por causa da temperatura alta da água. Mas também senti-me relaxada, como há muito não me sentia.

 

 

As águas das Furnas têm muita procura por causa das suas propriedades medicinais, como por exemplo no tratamento do reumatismo, diabetes e doenças de peles. Acerca de quarenta metros da nascente, existiam os “banhos do Tio Cabaço”, pequeno balneário dotado de duas banheiras e abastecido por uma água quente e férrea, conhecida por “Água do Tio Cabaço”. De acordo com a medicina popular, era apropriada para tratamentos de doenças de pele.

Como possui uma grande concentração mineral, nomeadamente o ferro, estas águas apresentam um "rastro" alaranjado por onde passam. Isto deve-se à presença de cianobactérias, seres oxigénicos fotosintécticos que, em ambientes ricos em ferro, reagem com o ferro livre, oxidando-o e levando-o à sua precipitação. Por isso, recomenda-se uma bom duche depois deste banho para prevenir vestígios amarelados na roupa de banho e no corpo.

O nome deste parque advém da novela brasileira "Dona Beija", por causa das imagens românticas da cachoeira, onde a personagem de Maitê Proença se banhava e que ficou na memória dos furnenses. Antes de ter este nome, este espaço era conhecido por "Levada do Tio Chico Brasil", por causa de uma pena de água da nascente ser conduzida por uma levada para o moinho de rodízio localizado nas proximidades.

Estas águas férreas são utilizadas pelos furnenses para irrigar as plantações de inhames (lameiros), pois as lamas funcionam como fertilizantes ecológicos para aquele tubérculo. 

A infraestrutura da Poça da Dona Beija é cuidada, com toalhas para aluguer na loja de souvenirs, lockers para guardar bens pessoais e uma área de duche, para que se possa tirar esta água férrea do corpo. Mas com custos associados, como é lógico. A entrada custa 6 euros. Contudo, uma das grandes vantagens é o horário, que se prolonga até às 23:00 horas locais, sendo que a última entrada só é aceite até as 22:30h. Por isso, aqui fica uma sugestão para um programa nocturno diferente e aprazível.

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Antes da refeição do cozido no Restaurante Miroma (https://www.tripadvisor.pt/Restaurant_Review-g1190881-d2358035-Reviews-O_Miroma-Furnas_Povoacao_Sao_Miguel_Azores.html), fomos passear por esta vila, conhecida pelas suas águas termais e pelas caldeiras, zona de manifestações de vulcanismo activo, onde de várias bocas brotam géisers de água fervente e lamas medicinais, e onde existe uma série de bicas vertendo águas minerais de diversos sabores e temperatura, o que faz das Furnas uma das mais ricas regiões hidrológicas da Europa.

 

 

Antes da visita à Lagoa das Furnas, fomos ao Restaurante "O Miroma", para comer o prato mais típico da região: o cozido das Furnas, que é cozinhado com o calor geotérmico, abundante neste local. Este prato é preparado num buraco sob a terra, levando seis horas para ficar pronto e vê-lo a sair da terra é interessante...mas isso fica para mais tarde. O cozido foi nos apresentado numa enorme bandeja, bem preenchida de couves, chouriços e carnes e estava delicioso. Mas ao fim de pouco tempo, fiquei empanturrada com tanta comida.

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Depois de um pesado almoço, e para digerir melhor o cozido, fomos visitar a famosa Lagoa das Furnas. Esta encontra-se rodeada por uma abundante vegetação macaronésica, além de abundantes manifestações vulcânicas do tipo fumarola, sulfatara e caldeiras de águas ferventes.  Foi engraçado ver os patos na margem da Lagoa e a descansarem à sombra, debaixo das mesas das esplanadas existentes.

 

 

Nas margens desta lagoa, e devido às águas ferventes vulcânicas, fazem-se os tradicionais cozidos à portuguesa, debaixo da terra com o calor dessas manifestações vulcânicas.

 

 

Mais um paraíso na Terra que deve ser obrigatoriamente visitado e apreciado. Tive sorte de, em pleno outono, desfrutar de um autêntico dia de Verão neste local.

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De acordo com a lenda, no local onde se encontra esta lagoa, existiu há muitos anos uma bonita aldeia, onde as pessoas eram felizes, viviam quase sem trabalhar e faziam muitas festas. Numa bela manhã solarenta, um rapaz saiu de casa em direcção a uma fonte próxima, para buscar água para as lides domésticas e para dar de beber aos seus animais. Contudo, a água que costumava ter um agradável paladar, estava estranhamente salgada, quase como a água do mar. O rapaz pressentiu que algo de estranho iria acontecer à sua aldeia e seus habitantes. Ele informou os vizinhos do sucedido, mas ninguém acreditou nele.

Quando ele voltou ao mesmo sitio, ele viu que no lago, em frente à nascente, por onde corria a bica de água, os peixes saltavam na água e desta para a terra, onde acabavam por morrer. Convencido de que algo iria acontecer à sua aldeia, ele voltou a informar a população sobre o sucedido, mas, mais uma vez, ninguém acreditou nele, excepto o seu avô.

O idoso pediu às pessoas da aldeia que parassem com as festas e que alguém da aldeia fosse a correr até ao pico mais alto nas redodndezas, por forma a ver o mar e a olhar para o norte, no intuito de ver alguma ilha no horizonte. Como ninguém o levou a sério, só o idoso e o neto subiram ao monte mais alto, onde viram no horizonte uma ilha que despontava no meio da bruma, a ilha encantada das Sete Cidades. Aflito, o idoso gritou para os aldeões se refugiarem na igreja, mas ninguém ouviu as suas preces por causa da música tão alta. O idoso e o neto desceram o monte, passaram pela igreja e foram tratar dos animais e da vida imediata. Resolveram sair da aldeia para levarem os animais ao mercado da aldeia vizinha, e por lá se demoraram alguns dias a negociar. Quando voltavam à sua aldeia, à medida que se foram aproximando, foram-se apercebendo que as coisas estavam diferentes. Havia terra revoltada e montanhas novas. Ao chegar ao lugar onde devia estar a sua aldeia, esta tinha desaparecido, e no seu lugar encontrava-se uma grande lagoa de águas cristalinas e tranquilas. Fora um cataclismo que soterrara para sempre a aldeia.

As pessoas desta ilha, reza a lenda, acreditam que os aldeões continuam a viver debaixo das águas da lagoa, e que as borbulhas de gás vulcânico que se vê a sair da água são as pessoas a cozinhar lá no fundo. Dizem que os fumos, tipo fogo-fátuo, que por vezes se elevam das águas juntamente com um cheiro a pão de milho cozido, são as mulheres a aquecer o forno escondidas nos fundos e nas reentrâncias da bela lagoa.

 

Ao final da tarde, fomos visitar a Ponta da Ferraria, localizada no extremo sudoeste da ilha, nos Ginetes. Assim como toda a ilha tem origem em fenómenos geológicos vulcânicos ocorridos nos séculos passados, as belas paisagens que compõem a este local também receberam fortes influências desses fenómenos na sua formação geográfica.

O Pico das Camarinhas, com 309 metros de altura, foi responsável pela fajã lávica da Ponta da Ferraria. Fajã ou delta lávico é o nome dado a um terreno originado da escoação de lava de uma arriba costeira em direção ao mar.

A pseudocratera, que resultou no contacto entre a lava quente e a água do mar, juntamente com todos os outros acontecimentos, fez com que surgissem as águas termais e as famosas piscinas naturais da Ponta da Ferraria.

No entanto, há que ter em conta as condições da maré. A altura ideal para visitar este local é precisamente quando a maré estiver mediana ou pouco baixa, para uma melhor experiência e desfrutar de uma água com temperaturas agradáveis. A maré alta por vezes impossibilita que as águas termais no mar fiquem quentes, enquanto numa maré muita baixa as temperaturas podem ser bastante elevadas, causando sensação de incómodo e ou desconforto.

 

 

E mais uma vez, pude apreciar um belissimo pôr-do-sol, terminando em beleza este dia de banhos termais e de relaxamento.

 

Fontes:

http://www.ribeiragrande.pt/geo/lagoa-do-fogo/

https://www.almostlocals.com/um-dia-na-regiao-das-furnas-sao-miguel-acores/

https://byacores.com/poca-da-dona-beija/

- https://byacores.com/ponta-da-ferraria/