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Viagens sem Fronteiras

Viagens sem Fronteiras

Vidro em Murano e arco-íris em Burano

7 de agosto de 2017.

 

Depois de uma noite bem dormida, acordei um pouco mais confortada. A pele das minhas pernas começava a regressar à normalidade. As babas já não estavam tão assanhadas, a comichão inicial tinha desaparecido e não sentia dores nos pés. Contudo, os tornozelos ainda estavam inchados. Mais um dia difícil, pensei para com os meus botões.

Afinal, o quarto não era tão decepcionante como inicialmente se previra. O colchão era bom e a noite foi bem passada. Apesar do atrito com o recepcionista que teimava que a televisão estava a funcionar, apesar de não funcionar ("bastava carregar no botão exit", dissera ele), o assunto resolveu-se sem mais delongas. Contudo, o pequeno-almoço era pobre e pouco diversificado. Passar de um hotel que oferecia um manjar dos deuses logo pela manhã, para outro que só nos oferecia poucos alimentos, foi, no mínimo, chocante. Poucos cereais, pouco pão (e duro, por sinal), pouca pastelaria (só havia pequenos croissants, que por acaso eram bem apetitosos), quase nenhuma fruta, iogurtes e o cappucino era de máquina, deslavado e sem charme. E ainda por cima, amargo. Enfim, lá tentei alimentar-me bem com o que tinha. Levar alguma comida para o passeio? Nem pensar! Estava bem explicito e colado na parede, junto à mesa do pequeno-almoço: No take away! Sovinas!

Depois da decepção matinal, lá fomos para a paragem de autocarros que ficava a 20 metros do hotel. Alguns minutos mais tarde, apareceu um autocarro, apinhado de gente, em direcção a Veneza. As pessoas pareciam sardinhas enlatadas e, mais uma vez, eu e a Joana utilizámos um transporte público sem pagar um tostão. Como é que poderiamos picar o bilhete, se nem nos conseguiámos mexer? E ainda havia a agravante que, nas paragens seguintes, continuavam a entrar pessoas mesmo com o autocarro abarrotado. Os italianos são mesmo doidos!

10 minutos depois saimos na Piazzale Roma, e fomos em direcção à estação dos vaporettos para comprar bilhetes. Optámos pelo bilhete de um dia, que custou 20 euros a cada uma. Iniciamos assim a nossa primeira viagem de barco neste dia, atravessando o Canal Grande da cidade, apreciando-a de uma outra forma. Depois de se passar pela Ponte Rialto, o canal dobra-se em si próprio (La Volta) e depois abre-se quando se aproxima da Piazza San Marco. Os edificios, muitos deles palácios que se encontram nas margens do canal, foram construídos ao longo de cinco séculos e apresentam uma belissima panorâmica da história da cidade. 

 

 

E assim descobrimos Veneza de uma outra forma e constatámos mais uma vez a sua beleza. Quer pelo interior, caminhando pelas suas ruas estreitas, pracetas e pequenas pontes, quer pelo exterior, navegando no Grande Canal, Veneza é um festim infindável para os olhos humanos. Chegámos ao cais da Piazza San Marco e apanhámos outro vaporetto, rumo às ilhas de Murano e Burano. O passeio foi rápido e aprazível. Estava calor e as ondas do mar ajudavam a refrescar o corpo com os seus pingos. A primeira paragem foi em Murano (http://cristaiscadoro.com.br/murano/), conhecido pelas suas fábricas de vidro. Quem nunca ouviu falar do famoso vidro de Murano? Pois bem, assim que pusemos o pé em terra, ouvimos os berros de um homem a indicar o caminho para uma dessas fábricas. Perguntei-lhe, muito educadamente, onde era o posto de turismo e o senhor grunhiu com ar de poucos amigos: "Aqui não há posto de turismo!". Ok, isso significava que iriamos conhecer o local sem mapa ou qualquer outra orientação. O que vale é que o mesmo era relativamente pequeno, e duas ou três horas chegam perfeitamente para descobri-lo. Murano, embora descrito como uma ilha da lagoa de Veneza, é na realidade, um arquipélago de sete ilhas menores, das quais duas são artificiais (Sacca Serenella e Sacca San Mattia), unidas por pontes entre si. Tem aproximadamente 5500 habitantes e fica somente a 1 km do centro de Veneza. É conhecido pelas suas obras em vidro, particularmente objetos decorativos e candeeiros.

 

 

Um dos edificios mais importantes e imponentes desta ilha é a Basilica dei Santo Maria e Donato. Apesar da sua restauração, esta igreja do Séc. XII ainda mantém os seus belos traços originais. É conhecida pelo seu pavimento de mosaicos bizantinos, datado do Séc. XII. Reza a lenda que contém as relíquias do Santo Donatus de Arezzo, bem como ossos largos atrás do altar de um dragão, morto pelo dito santo. É uma das mais antigas igrejas da lagoa de Veneza e foi originalmente construída no Séc. VII, tendo sido reconstruída no Séc. IX e em 1040 d.c., embora talvez tenha existido outras reconstruções mais tarde. O interior desenvolvido desta igreja e as suas valiosas relíquias estão relacionados com a guerra legendária dos párocos da mesma com a igreja vizinha de San Stefano, que durou até 1125, quando Domenico Michele dominou esta igreja, colocando nela as relíquias Santo Donatus de Arezzo. 

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Mas o grande foco de interesse desta ilha é a indústria vidreira com as suas inúmeras fábricas, que poderiam ser visitadas por alguns minutos. Vimos algumas peças de vidro a serem feitas, sendo a figura de um cavalo a mais memorável. Em 1291, todos os cristaleiros de Veneza foram obrigados a mudar-se para Murano devido ao risco de incêndio, por causa da esmagadora maioria dos edifícios de Veneza ser construída em madeira. Durante o século XIV, as exportações começaram e a ilha ganhou fama, inicialmente pelo fabrico de missangas de cristal e de espelhos. O cristal aventurina foi inventado na ilha e, durante algum tempo, Murano chegou a ser o maior produtor de cristal da Europa. O arquipélago, mais tarde, ficou conhecido pelo fabrico de lustres. 

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O resto do passeio foi dedicado à mui arte do shopping, principalmente peças de vidro. Existiam tantas lojas a vender todo o tipo de peças em vidro, o que fazia aumentar a escolha e a dúvida. Depois de percorrer inúmeras lojas, praticamente indiferenciadas, acabei por comprar bijutaria (um colar e um par de brincos) e um gatinho em vidro. Claro que tive de escolher peças pequenas, por forma a caber na bagagem. Para além das visitas às lojas, também almoçámos em Murano, num restaurante à beira de um canal. Contudo, devido ao calor, e ao facto das mesas exteriores estarem totalmente preenchidas por turistas, tivemos que nos contentar em almoçar um menu turístico de 18 euros no interior do restaurante, que, em abono da verdade, estava bem mais fresco e confortável. Tivemos direito a uma entrada (penso que foi bruschetta) e a dois pratos principais. Primeiro, comi a tradicional massa al pomodoro (massa com molho de tomate), e, em seguida, comi um pequeno, mas agradável ao palato, linguado. Eu e a Joana partilhámos uma garrafa de água e acho que tivemos direito a uma sobremesa. Tudo isto por 18 euros... que rica vida!

 

De seguida, apanhámos novamente o vaporetto em direcção a Burano (http://www.isoladiburano.it/en/), que se situa na lagoa de Veneza, sete kms mais a sul. Também é uma localidade constituída por diversas ilhas pequenas ligadas por pontes entre si. É conhecida igualmente pelos seus cristais, trabalhos em renda (que são, de facto, lindíssimos) e por ser um autêntico arco-íris, em plena lagoa. Foi fascinante observar as casas dos seus habitantes extremamente coloridas e, sobretudo, cuidadas. Notava-se que existia um trabalho digno em manter este colorido pela localidade.

 

 

Os primeiros ocupantes das ilhas foram, provavelmente, romanos, mas é no Sec. VI que é baptizada com o seu actual nome, devido à ocupação de pessoas vindas de Altino, que terão dado à ilha o nome de uma das portas da sua cidade. No entanto, existem mais duas versões sobre a origem do nome: uma delas, o nome deriva do apelido da primeira família que ali se estabeleceu, os Buriana, e a outra que o nome foi dado pelos habitantes de Buranello, uma ilha  que fica a 8 km a sul de Burano. Apesar de se ter desenvolvido depressa, Burano continuou a ser parte do território administrado por Torcello, mas sem os mesmos privilégios que os seus habitantes, ou os de Murano, tinham. A situação só se alterou quando as mulheres locais começaram a produzir belas peças de renda, que rapidamente começaram a ser exportadas para o resto da Europa.

Burano tem o seu centro nevrálgico e turístico, a Piazza Baldassare Galuppi, onde se localiza a igreja de San Martino, conhecida pelo seu campanário pendente. Por conta de sua inclinação, o campanário tornou-se no símbolo desta ilha. A estrutura começou logo a ceder na fase de construção. Foi projetado por Andrea Tirali, construído entre 1703 e 1714 e tem 53 metros. Concluindo, os italianos não tinham lá muito jeito para a construção de edificios... todos imponentes, mas alguns tortos (afinal não é só em Pisa). 

 

 

Regressamos a Veneza ao final da tarde, já o sol começava a desaparecer no horizonte. Adoro capturar o pôr-do-sol, em qualquer localidade que eu visite. Tornou-se num hábito desde que fotografei o pôr-do-sol mais inesquecível no Cabo Sounio na Grécia. São estes pequenos momentos que fazem valer a pena viajar por esse mundo fora.

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O jantar já foi em pleno coração veneziano, num pequeno bar chamado Bacaro Risorto (https://www.tripadvisor.pt/Restaurant_Review-g187870-d1088055-Reviews-Bacaro_Risorto-Venice_Veneto.html), onde bebi um spritz (uma bebida local em tom de laranja) por 4 euros e comi algumas tapas, a preços que variavam entre 1,5 euros e 1,80 euros. No total, foram 8 euros que gastei com a brincadeira. Embora bem referenciado no Tripadvisor (a nossa biblía no que concerne à gastronomia), o bar fica numa rua extremamente agitada, não se destaca da multidão e enche rapidamente, o que se torna dificil arranjar assento depois de uma dia cansativo de passeio.

Ainda tivemos alguma força para apreciar a Piazza San Marco em plena noite, mas não achei que tivesse suficientemente iluminada para deslumbrar os turistas. Gostei muito mais da iluminada e imponente Piazza del Duomo de Milão. No entanto, a Piazza de San Marco possui os seus encantos nocturnos. Existem restaurantes históricos no local, onde os clientes e transeuntes podem apreciar as melodias clássicas tocadas por uma pequena orquestra, enquanto saboreiam um bom vinho e uma deliciosa pasta. Alguns restaurantes até rivalizam entre si, porque as ditas orquestras espalham-se pela praça, numa mistura de melodias que acaba por ser interessante. Só mesmo em Veneza!

E, para acabar o dia em beleza, eu e a Joana regressámos à Piazzale Roma de vaporetto, passeando novamente pelo Grande Canal, tentanto apreciar a cidade na sua fase nocturna. Pois...também não é nada de especial. Os edificios não estão suficientemente iluminados para transmitir o charme que têm, o que é pena. Contudo, foi um dia proveitoso, magnifico e que fazia prometer novas e boas experiências no dia seguinte.

 

 

Fonte: DK Eyewitness Travel. Italy 2017, p. 125.

 

 

 

 

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